PAÇOS DE CELAS (Coimbra)
A estada de Carlos em Coimbra, cidade onde faz os seus estudos em medicina, nos anos 70, e que é reconhecida como símbolo da boémia estudantil. É aqui que Carlos vive as suas primeiras aventuras românticas e se torna amigo de João da Ega.
“Para esses longos anos de quieto estudo o avô preparara-lhe uma linda casa em Celas, isolada, com graças de cottage inglês, ornada de persianas verdes, toda fresca entre as árvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) pôs-lhe o nome de «Paços de Celas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete na sala, poltronas de marroquim, panóplias de armas, e um escudeiro de libré.” - Os Maias, cap. IV, pg. 89
"Os Paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma ginástica científica. Uma velha cozinha fora convertida em sala de armas - porque naquele grupo a esgrima passava como uma necessidade social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um whist sério: e no salão, sob o lustre de cristal, com o Figaro, o Times e as Revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocando Chopin ou Mozart, os literatos estirados pelas poltronas - havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flamejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metafísicas, as próprias certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes." - Os Maias, cap. IV, pg. 90
"Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi quando ele, ao fim dumas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga espanhola, e a instalou numa casa ao pé de Celas. Chamava-se Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mês uma vitória com um cavalo branco e Encarnacion fanatizou Coimbra como a aparição duma Dama das Camélias, uma flor de luxo das civilizações superiores. Pela Calçada, pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pálidos de emoção, quando ela passava, reclinada na vitória, mostrando o sapato de cetim, um pouco da meia de seda, lânguida e desdenhosa, com um cãozinho branco no regaço.
Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada Lírio de Israel, Pomba da Arca, e Nuvem da Manhã. Um estudante de teologia, rude e sebento transmontano, quis casar com ela. Apesar das instâncias de Carlos, Encarnacion recusou; e o teólogo começou a rondar Celas, com um navalhão, para «beber o sangue» ao Maia. Carlos teve de lhe dar bengaladas." - Os Maias, cap. IV, pg. 94
"Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Celas. Afonso viera de Santa Olavia, Vilaça de Lisboa; toda a tarde no quintal, de entre as acácias e as belas sombras, subiram ao ar molhos de foguetes; e João da Ega, que levara o seu ultimo R no seu ultimo ano, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas venezianas pelos ramos, no trapézio e em roda do poço, para a iluminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Vilaça, enfiado e tremulo, fez um speech; ia citar o nosso imortal Castilho quando sob as janelas rompeu, a grande ruído de tambor e pratos, o Hino Académico. Era uma serenata. - Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para traz das costas, correu à sacada, a perorar:
- Aí temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma - ou acabar de a matar, segundo as circunstâncias!" - Os Maias, cap. IV, pg. 95 (fim da grande analepse)
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