LARGO DAS NECESSIDADES

É junto a este largo que se localiza o laboratório de Carlos, um dos espaços que simbolizam o seu diletantismo.


"Carlos pensara em arranjar um vasto laboratório ali perto no bairro, com fornos para trabalhos químicos, uma sala disposta para estudos anatómicos e fisiológicos, a sua biblioteca, os seus aparelhos, uma concentração metódica de todos os instrumentos de estudo...
Os olhos do avô iluminavam-se ouvindo este plano grandioso.
- E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fizemos nestes últimos anos de Santa Olavia algumas economias...
- Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Vilaça."

"Carlos concordou. E Vilaça bem depressa descobriu, para o laboratório, um antigo armazém, vasto e retirado, ao fundo de um pátio, junto ao Largo das Necessidades.

"Carlos falou dos seus planos, de altas ideias de trabalho, das obras do laboratório...
- Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o veludo dos reposteiros, mirar os torneados da secretária de pau preto.
- Não sei. O Vilaça é que deve saber..."

"Ocupava-se então mais do laboratório, que decidira instalar no armazém, às Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ia visitar as obras. Entrava-se por um grande pátio, onde uma bela sombra cobria um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam ao muro. Carlos já decidira transformar aquele espaço em fresco jardinete inglês; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre, resto de fachada de ermida, fazendo um acesso venerável para o seu santuário de ciência. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; sempre um vago martelar preguiçoso numa poeira alvadia; sempre as mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um carpinteiro esgrouviado e triste parecia estar ali, desde séculos, aplainando uma tábua eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os trabalhadores que andavam alargando a clarabóia, não cessavam de assobiar, no sol de inverno, alguma lamúria de fado.- Os Maiascap. IV

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