QUINTA
DE SANTA OLÁVIA (Resende, Douro)
Santa Olávia aparece em Os Maias, de Eça de Queirós, como um solar nas margens do Douro.

Santa Olávia ficava em Resende, "ao pé do rio Douro", na sua margem esquerda. Aí vivia a família Maia "desde a Regeneração" e aí regressava com frequência. Afonso gostava daquele espaço: "o que o prendera mais a Santa Olávia fora a sua grande riqueza de águas vivas, nascentes, repuxos, tranquilo espelhar de águas paradas, fresco murmúrio de águas regantes..." (cap. I).
"O resultado era que os Maias, com o Ramalhete inabitável, não possuíam agora uma casa em Lisboa; e se Afonso naquela idade amava o sossego de Santa Olávia, seu neto, rapaz de gosto e de luxo que passava as férias em Paris e Londres, não quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro.” (cap. I)
É para essa Quinta que Afonso da Maia vai quando o seu filho Pedro da Maia se suicida. Este espaço é como que um refúgio para a família Maia, pois sempre que acontece alguma tragédia, é para lá que vão, simbolizando a vida e a regeneração dos dois varões da família, o clima ameno que lá se faz sentir representa a purificação de Afonso. Esta é o símbolo de vida, ligada à água que contrasta com Lisboa, “a cidade degradada”.
“Carlos passava as férias grandes em Lisboa, às vezes em Paris ou Londres;
mas por Natais e Páscoas vinha sempre a Santa Olávia.” (capítulo IV)
“[…] que o prendera mais a Santa Olávia fora a sua grande riqueza de águas
vivas, nascentes, repuxos, tranquilo espelhar de águas paradas, fresco murmuro
de águas regantes… E a esta viva tonificação de água atribuía ele o ter vindo
assim, desde o começo do século, sem uma dor e sem uma doença, mantendo a rica
tradição de saúde da sua família, duro, resistente aos desgostos e anos – que
passavam por ele, tão em vão, como passavam em vão, pelos seus robles de Santa
Olávia, anos e vendavais.” (cap. I)
O abade Custódio e o Vilaça pai eram visitas frequentes, em Santa Olávia.
É em Santa Olávia que Afonso educa o seu neto Carlos da Maia (à maneira Inglesa, em constante contacto com o ar livre), que só voltará para Lisboa, em 1875, quando este termina o seu curso de Medicina, indo habitar o Ramalhete E é a Santa Olávia que Carlos regressa, no fim da obra, após dez anos de ausência, antes de procurar os amigos em Lisboa.
Esta quinta aparece como lugar do sossego, do repouso, símbolo da vitalidade.
- Então aqui ficamos nós sós a torrar, na cidade de mármore e de lixo...
- Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a cismar, por entre a poeirada de Sintra!" (cap. XIV)
O fiel companheiro de Afonso da Maia, o pesado e enorme angorá branco com malhas louras, ganhara um nome que recendia à Igreja:
"Tinha nascido em Santa Olávia, e recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça fora-lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D. Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio..." (cap. I)
Jantar e serão em Santa Olávia (cap. III)
"- Mas enfim os clássicos, arriscou timidamente o abade.
- Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo duma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande..."
"- Ouça abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por medo ás caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino do céu...
E acrescentou, erguendo-se e sorrindo:
- Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abade, é quando vem, depois de semanas de chuva, um dia destes, ir respirar pelos campos e não estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Vilaça não está muito cansado, vamos dar aí um giro pelas fazendas..." (cap. III)
- Neminè! Neminè!
Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha acompanhado os senhores de Santa Olávia correu à porta, abraçou-se quase chorando no menino, agora mais alto que ele, e muito formoso na sua batina nova.
Em cima no quarto, Manuel Vilaça, soprando ainda, limpando as bagas de suor, exclamava:
- Ficou tudo espantado, Sr. Afonso da Maia! Os lentes até estavam comovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, é o que todo o mundo disse... E que faculdade vai ele seguir, meu senhor?Afonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:
- Não sei, Vilaça... Talvez nos formemos ambos em Direito.
Carlos assomou à porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro escudeiro - que trazia champagne numa salva.
- Então venha cá, seu maroto, disse Afonso muito branco, com os braços abertos. Bom exame, hein?... Eu...
Mas não pôde prosseguir: as lágrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba branca." (cap. III)
